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Quem conserva o meio ambiente merece apoio
     
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Pantanal, um mundo a salvar
 

"Aqui antes enchia tudo", explica o vaqueiro Manuel enquanto seu cavalo enterra os cascos na areia áspera. Sua mão se espalma no ar para dar a certeza de que a frase abarca toda a grande área que rodeia a bela Vazante do Castelo. Manezinho, como é chamado na Barra Mansa, fazenda onde trabalha, conta que já faz alguns anos que este pedaço de campo não se cobre mais de água como antigamente.


FORA DE RISCO

O sistema de cheias manteve sempre muito baixa a população pantaneira. Graças a isso, animais como o jacaré-do-pantanal mantiveram-se vivos durante séculos.
 
Pode ser um ciclo, desses que desabam sobre a região de década em década e trazem mais ou menos água do que o habitual. Pode ser, mas como explicar as enchentes avassaladoras do Rio Taquari, que têm mantido submersos de modo permanente cerca de 500 mil hectares de terra? O Pantanal está mudando, e rapidamente.

O problema é que a água que encharcava o cavalo de Manezinho não é a única coisa que está secando por aqui. Minguaram também os principais recursos para deter as ameaças que pesam sobre a a região. Juntas, elas podem acabar com o Pantanal em menos de meio século.

Nos últimos anos, não faltaram esforços de seus habitantes para reverter o quadro. Mas uma infeliz combinação de más gestões, conflitos de interesse e crises financeiras paralisou a maioria dos projetos. A solução mais animadora, a de unir dezenas de fazendas num parque preservacionista, ancorou no ano passado. Do mesmo modo como foi por água abaixo o maior projeto ambiental de todos os governos brasileiros, o Programa Pantanal. Nesse passo, haverá tempo para salvar este raríssimo tesouro da natureza?

"Um brinde ao Pantanal, para que ele sobreviva!", conclama Beatriz Rondon, levantando um copo de pinga com acaiá, o nome que aqui se dá ao cajá. E reconhece: "Porque tá difícil...". Beatriz é uma espécie ameaçada de extinção. Seu hábitat são os 30 mil hectares de terra que se apertam entre os rios Aquidauana e Negro e recebem o nome de Fazenda Santa Sophia. Aqui não há estrada para carros, só cavalos. Beatriz é a proprietária há três décadas, mas vive no Pantanal desde que seu pai a levou para São Paulo apenas para nascer, há 65 anos.

 
MORTE ANUNCIADA

Poucas tradições seculares resistem na vida dos peões. Sinal de que, junto com a natureza, a cultura popular pantaneira também está morrendo.
 
Mulher numa terra hostil, honrou como pôde a força de seu clã, um dos mais antigos do Pantanal, formado há mais de um século por seu avô, irmão do sertanista marechal Cândido Rondon. Pela manhã, não sai de casa sem revólver na cintura, presente do pai quando completou 15 anos. Hoje, Beatriz é um dos poucos fazendeiros no Pantanal a preservar o estilo de vida que tem feito deste lugar um dos paraísos possíveis da convivência entre o homem e a natureza. Mas o paraíso está mudando a passos rápidos. Para Beatriz, rápidos demais. "A gente tem agüentado há 200 anos, mas não sei se agüenta mais."

Um golpe duro: no ano passado, os maiores projetos de preservação foram paralisados

Um estudo divulgado no final do ano passado pela ONG ambientalista americana Conservação Internacional chegou à conclusão de que 17% da vegetação original do Pantanal brasileiro já foi posta abaixo. O fato mais alarmante, porém, é que o ritmo de desmatamento aumentou cinco vezes em relação à década passada. Hoje a região perde mais de 3 milhões de hectares - ou 2,3% de sua área - por ano. Se nada mudar, nosso Pantanal pode desaparecer em 45 anos. Tudo se torna mais dramático quando se descobre que apenas 4,5% da região tem algum tipo de proteção, seja pública, seja particular. Isso inclui um único parque nacional, o do Pantanal Mato-Grossense A conseqüência direta do desmatamento é o assoreamento dos rios. Sem árvores, o solo fica mais exposto à erosão e desliza em direção aos cursos-d'água pantaneiros. O sedimento torna o leito mais raso e, como estamos no Pantanal, na época das cheias a área de inundação é ainda maior. A longo prazo, porém, os rios vão se enchendo de terra até secarem de vez.


 
PARAÍSO DA TOLERÂNCIA
As velhas leis de preservação ambiental - que rezam a eliminação da presença humana do lugar - não se aplicam ao Pantanal. Por mais de 200 anos o homem e o gado mantiveram uma relação de perfeita convivência com a terra
e os bichos. Graças a esse modelo, inúmeras espécies animais que estão ameaçadas no resto do Brasil e do exterior vivem em paz nesta planície. Todos, homens, campos, matas e bichos, regidos por um mesmo maestro, impiedoso: a força das águas.
 
Não bastasse a derrubada das árvores, a agricultura no planalto ainda se encarrega do pior. Estima-se que cerca de 2 mil metros cúbicos de sedimento sejam lançados no Taquari por dia - o que equivale a 250 caminhões-betoneira despejando areia direto no rio. Resultado: dezenas de fazendas tiveram que ser abandonadas por causa das inundações cada vez mais ferozes. Em algumas, até a pista de pouso ficou debaixo d'água. "O que fizeram com o Taquari foi uma desgraça completa e absoluta", vocifera Sandro Menezes, gerente do Programa Pantanal da Conservação Internacional. "Secou onde tinha água, inundou onde não tinha. Processos naturais de 300 anos levaram apenas 20 anos para acontecer."

Se o Pantanal fosse uma planície como qualquer outra, ou ao menos um pântano, como o nome sugere, as coisas seriam um pouco diferentes. Mas a geografia pantaneira é única no mundo e, portanto, exige cuidados especiais. A região é uma espécie de depressão cercada pelo Planalto Brasileiro. Jamais foi mar, como se acredita, mas todo ano recebe bilhões de litros de água, que descem pelos rios que nascem no planalto ou caem com a chuva. Apenas 40% dessa água escoa pelo único gargalo possível, o Rio Paraguai.
 
ACERTO DE CONTAS

Tanta água foi benéfica ao Pantanal, pois emperrou seu desenvolvimento. Os poucos humanos que se atreveram a ficar por aqui tiveram que se adaptar às condições impostas pela natureza. O isolamento permitiu que mais de mil espécies de animais vertebrados e cerca de 3 500 espécies de plantas pudessem viver longe do risco de extinção.

Uma das razões pelas quais este tesouro da biodiversidade se manteve desse jeito foi a própria gente pantaneira. Por conta do regime das águas e do solo pobre, só a pecuária extensiva foi possível como atividade econômica por aqui. Os fazendeiros se aproveitam das próprias pastagens naturais para soltar o gado e se encarregam de pôr fogo apenas para renovar o capim.

"O pantaneiro não queima mata, só pasto", esclarece Beatriz Rondon. As queimadas, ela explica, só acontecem na época da vazante, quando ainda há água na planície para evitar que o fogo se alastre. No campo renascido, alimentam-se também centenas de outros amantes do capim, como capivaras, antas e veados. Num lance insólito, a presença do boi ajuda também a preservar a antes ameaçada arara-azul: a ave adora comer a castanha dos cocos de palmeira regurgitados pelo gado. E até a caça o bovino ajuda a combater: "O peão só caça quando tem fome. E com tanta carne à disposição, quem vai querer caçar? Dá muito mais trabalho", conta Beatriz.
 
Gado orgânico

Em tempos de vaca louca, o Pantanal pode sair ganhando. Um estudo da Conservação Internacional descobriu que os norte-americanos chegam a pagar o dobro por uma carne que tenha o selo orgânico. E o Pantanal é um dos poucos lugares do Brasil onde ainda é possível produzi-la. Além de tudo, seria a tão sonhada saída econômica para os pantaneiros e também uma forma de preservar o ecossistema. Para uma carne ser orgânica é preciso usar apenas pasto nativo, abolir os produtos químicos na alimentação do gado, e eliminar as queimadas, entre outras medidas. Para o Pantanal, não seria difícil adaptar-se.

Em 2001, a Fazenda Eldorado tornou-se a primeira a obter certificação para comercializar a carna orgânica. Hoje, com o apoio da ONG WWF, mais de 20 fazendas reúnem-se em torno de uma cooperativa para impulsionar o produto. A partir disso, os fazendeiros querem também investir no vitelo orgânico do Pantanal: em vez de vender o bezerro para engordar o planalto, a idéia é abatê-locom até 12 meses, seguindo os preceitos orgânicos.

Nesse quesito, criava-se apenas uma exceção à onça, feliz predadora dos milhões de cabeças do Pantanal e inimiga número 1 dos fazendeiros. "Caçar onça era uma das maiores emoções da minha vida", lembra Beatriz, uma antiga entusiasta da prática de dizimar felinos. Há alguns anos, porém, ela aprendeu a admirar a nobreza do bicho e sua importância para o Pantanal.

Por conta do centenas de espécies animais têm vivido aqui longe do risco de extinção

FAMÍLIA NUMEROSA

Especialmente depois do surgimento do Projeto Onça-Social, criado pelo Fundo para a Conservação da Onça-Pintada. A idéia consiste em reembolsar os fazendeiros por cada rês que se comprove que foi morta pelo animal. Apoiado pela Conservação Internacional até meados deste ano, o projeto agora busca novos patrocinadores. Hoje Beatriz e dezenas de outros proprietários lutam pela preservação do felino. Alguns até aceitam resignados a perda do gado em troca de uma onça em suas terras e atrair a simpatia de turistas e ambientalistas. É o caso da Fazenda Caiman, propriedade da família Klabin, onde 500 reses são devoradas pelo bicho anualmente.

Por séculos a economia pantaneira sustentou-se apenas com o gado. Os fazendeiros criam os bezerros durante um ou dois anos e depois os animais sobem em comitiva até o planalto, onde são engordados e abatidos. Funcionou até os anos 80, quando os pecuaristas pantaneiros não conseguiram acompanhar o aumento de produtividade em outros lugares do Brasil. A isso some-se o que é chamado por aqui de "reforma agrária familiar", ou seja, a divisão de terras entre os herdeiros.

"Por causa das cheias, um fazendeiro precisa de no mínimo 15 mil hectares de terra para o Pantanal ser economicamente viável", aponta o engenheiro, cantor e compositor Guilherme Rondon, primo em segundo grau de Beatriz. "E o que está acontecendo é que uma fazenda dessas está virando três de 5 mil hectares antieconômicas." Guilherme, um dos herdeiros da Fazenda Barra Mansa, explica que a região exige grandes extensões de terra porque boa parte delas permanecem debaixo d'água durante metade do ano. Mas o governo parece não saber disso: "O pantaneiro sempre foi tratado como latifundiário. Por causa do tamanho das terras, achavam que éramos proprietários ricos, que não precisávamos de isenção de impostos".


 
No Pantal...
Menos de 5% da porção brasileira da planície está protegida por algum tipo de reserva ambiental, entre públicas e particulares.

Estima-se que existam 3,7 milhões de jacarés em toda a região, o que equivale a mais da metade da população da cidade do Rio de Janeiro. São 70 desses répteis por habitante humano.

É desmatada diariamente uma área equivalente a 1000 campos de futebol iguais ao do Maracanã

Há 3,8 milhões de cabeças de gado espalhados pelas fazendas. Duas para cada morador do Mato Grosso do Sul.

Vive 1 habitante a cada 3 km2. Uma densidade demográfica 3 vezes menor que a da Amazônia.

Fonte: Embrapa/ Conservação Internacional

O fato é que dois séculos de ocupação e sucessões têm tornado as fazendas pantaneiras cada vez menores. A do avô de Beatriz, a Rio Negro, tinha 280 mil hectares há 100 anos. À neta coube pouco mais que um décimo disso. Já em torno da sede sobraram apenas 7 mil hectares, comprados pela Conservação Internacional e transformados numa reserva ambiental. Com terras pouco rentáveis, cada vez mais fazendeiros estão trocando o Pantanal pela cidade grande.

Depois de um século na mão da família, Fernando Barros pôs a Fazenda Pouso Alto à venda. "Se fosse pelo lado do coração, a gente não vendia. Mas o Pantanal está ficando inviável", lamenta. Suas terras têm quase 12 mil hectares e, para piorar, ficam num pedaço pouco acessível da planície. De Aquidauana, são
sete horas de jipe. O posto de saúde está a 120 quilômetros. Energia, só movida a gerador. "Aquela região está totalmente abandonada."

Fernando ainda não tem comprador, mas é bem provável que seja algum empresário paulista ou sul-mato-grossense, como a maioria dos que estão adquirindo terras no Pantanal. Certamente esse novo latifundiário chegará e descobrirá que o regime das cheias é um sério entrave ao desenvolvimento econômico. Perceberá que as pastagens naturais não são suficientes para o gado e que será necessário pôr a mata abaixo e plantar capim africano. Para isso, é provável que faça uma troca com alguma das 5 mil carvoarias que se supõe existirem no Mato Grosso do Sul. "Eles estão pelando as fazendas de graça", diz Guilherme Rondon.

"Está surgindo uma combinação que é nitroglicerina pura", alerta Sandro Menezes, da Conservação Internacional, sobre o sórdido acordo no qual ambos, carvoeiros e novos fazendeiros, saem ganhando. "A carvoaria entrega o pasto limpo para o fazendeiro. E a natureza vira, literalmente, carvão." O cenário, que já não é animador, pode ficar ainda pior se Corumbá desenvolver um pólo siderúrgico, como são os planos do governo estadual. A questão é se o Pantanal agüentaria tamanha demanda por carvão vegetal.

Beatriz Rondon tem certeza de que todo o desmatamento é feito por gente de fora: "Nós estamos pobres. Não temos dinheiro nem para pagar conta, quanto mais desmatar". Mesmo se o tivesse, é pouco provável que uma pantaneira da gema como ela pusesse a mata abaixo. Eles todos sabem que a preservação de si mesmos e da sua cultura centenária passa, invariavelmente, pela preservação do Pantanal. Se o Pantanal morrer, eles morrem junto. Como escreve o pesquisador Abílio Leite de Barros no livro Gente Pantaneira: "Ecologistas já éramos por índole. Hoje nos tornamos por opção".

Graças a um sórdido acordo entre carvoarias e fazendeiros, o Pantanal está virando carvão vegetal

É por isso que em 2002 dezenas de fazendeiros sul-mato-grossenses se uniram em torno da idéia de criar o Parque Natural Regional do Pantanal. Em três anos, 180 fazendas já haviam aderido ao projeto, somando cerca de 2 milhões de hectares. O objetivo era buscar saídas econômicas sem ferir o ecossistema. Pensou-se no desenvolvimento da pecuária orgânica e do vitelo pantaneiro e também no manejo de espécies como o jacaré, a capivara e o porco-monteiro. O projeto incluía também a criação de escolas adaptadas ao ciclo das águas e ações de valorização da cultura pantaneira.

10 AMEAÇAS SOBRE O PANTANAL

1 Desmatamento
17% da área inundável já se foram, principalmente nas bordas, onde o acesso é mais fácil. A ausência de vegetação aumenta a erosão do solo e acaba causando o assoreamento dos rios.

2 Carvoarias
Calcula-se que haja mais de 5 mil operando no Mato Grosso do Sul, a maioria ilegais. Para obter o carvão vegetal, fazem um acordo com os fazendeiros, derrubando-lhes a mata dentro de sua propriedade.

3 Agricultura
As lavouras de soja, cana e algodão que ficam no planalto - onde nascem os rios que descem para o Pantanal - têm jogado cada vez mais pesticidas e causado a morte de inúmeros peixes. Ao provocar erosão, a atividade agrícola também lança toneladas de sedimentos nos rios pantaneiros, levando-os ao assoreamento.

4 Troca de pastagens
4Para aumentar a produtividade das terras, muitos fazendeiros estão trocando o capim nativo pela braquiária, um gênero africano altamente invasivo.

5 Reforma agrária familiar
Por causa das divisões sucessivas entre os herdeiros, fazendas que antes tinham centenas de milhares de hectares hoje possuem um tamanho inviável para a criação extensiva. Alguns acabam desmatando para ampliar a área de pastagens.

6 Pólo siderúrgico
6Com as facilidades do gasoduto boliviano, o governo quer desenvolver uma indústria de aço e ferro-gusa em Corumbá, onde há muito minério de ferro. Como as fábricas demandam muito carvão vegetal, isso pode ampliar o desmatamento.

7 Hidrovia Paraguai-Paraná
O projeto está na gaveta, mas os ambientalistas temem que o novo pólo industrial de Corumbá reacenda os planos de aumentar a vazão do Rio Paraguai para permitir a navegação de grandes barcos. Se isso acontecer, o rio drenaria boa parte da água que inunda o Pantanal, secando a planície e causando tremendas mudanças no ambiente.

8 Sobrepesca
Até 2000, a pesca esportiva chegava a retirar anualmente 1200 toneladas de peixe dos rios pantaneiros. Medidas oficiais a partir daquele ano reduziram em quatro vezes esse volume. Os estoques de pacu e de jaú, porém, continuam abaixo do normal.

9 Tráfico de animais selvagens
O papagaio-verdadeiro, 0 tamanduá-bandeira e a arara-canindé estão entre as espécies que mais são retiradas do Pantanal para ser vendidas ilegalmente a colecionadores particulares. A captura da arara-azul caiu bastante, mas ainda é cobiçada, dado o valor
de um exemplar no exterior: 25 mil dólares.

10 Caça
A captura predatória de animais selvagens diminuiu muito desde os anos 80, mas está voltando graças ao número cada vez maior de assentamentos de sem-terra nas bordas do Pantanal. A capivara, o tatu e a queixada são os preferidos para matar a fome.

A implantação seria realizada pela Fundação dos Parques Naturais Regionais da França, responsável pelo sucesso do modelo na Europa. O apoio financeiro viria da União Européia, com participação do governo do Mato Grosso do Sul. Seria tudo muito bom se o projeto não tivesse sido paralisado no ano passado, quando os europeus deixaram de enviar a verba. Guilherme Rondon, que acompanhou o projeto no seu início, explica: "Chegou-se a criar um instituto que implantaria o parque, mas houve falta de objetividade. Nem sequer havia uma lei no Brasil para esse tipo de parque. Os franceses, que eram muito exigentes, começaram a entrar em atrito com a diretoria".

"A diretoria na época achou que o dinheiro viria fácil, que os europeus não seriam necessários", explica Rita Jurgielewicz, a nova vice-presidente do Instituto Parque do Pantanal. "Chegou um momento em que virou cabide de empregos do Estado. Abriram-se muitas frentes, mas nenhuma estava andando." Rita, que assume este mês, diz que a nova diretoria vai tentar reatar com os franceses. "Eles ainda estão interessados, mas precisamos repensar os objetivos", afirma.

O Pantanal perde 3 milhões de hectares por ano com o desmatamento. 17% de sua área já se foi

À interrupção do novo parque pantaneiro e à divulgação do estudo sobre desmatamento somou-se, no passado, ainda outra má notícia: o anúncio, em setembro, de que o maior e mais caro projeto ambiental da história do Brasil também tinha sido suspenso.

O Programa Pantanal surgiu em 2001, um ano depois de a Unesco declarar o Pantanal Reserva da Biosfera e outorgar ao Parque Nacional e às reservas particulares adjacentes o título de Patrimônio Natural da Humanidade. A primeira fase deveria durar quatro anos, durante os quais seriam injetados 165 milhões de dólares para reverter o assoreamento dos rios, investir em ecoturismo e incentivar a agricultura e a pecuária sustentáveis. Metade desse dinheiro foi garantido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O resto seria dividido entre a União e os dois estados pantaneiros. Ao cabo de quatro anos e apenas 3% desse valor investido (a maioria em consultorias e taxas de empréstimo), o governo Lula resolveu não renovar o contrato. A alegação: o projeto era ambicioso demais.

Num cenário que não parece nada promissor para o Pantanal, algumas idéias, porém, têm sido implantadas com sucesso. Uma são as Reservas Particulares do Patrimônio Natural (as RPPNs). Nelas, o proprietário é o responsável pela preservação, desde que esteja de acordo com as normas ambientais. Muitos fazendeiros estão transformando os trechos alagáveis de suas terras, sem valor econômico, em reservas privadas. Ganham eles, que pagam menos impostos, e ganha a natureza, que conta com abrigo seguro.

 
TROFÉU DE PESCA
O dourado (Salminus maxillosus) é um dos peixes mais rápidos dos nossos rios. Por isso é também um dos mais cobiçados pelos pescadores esportivos.
 
Fim da PESCARIA

Não bastaram iniciativas do governo do Mato Grosso do Sul para controlar a pesca no Pantanal, que nos anos 80 chegou a retirar 3 mil toneladas de peixe dos rios. Algumas foram bem-sucedidas, como à relativa à pesca esportiva. Em 2000, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente limitou a cota a dois exemplares por pessoa e aumentou o tamanho mínimo de captura. Inibido pelas medidas, o número de pescadores amadores caiu pela metade.

No ano passado, o governo resolveu investir contra os pescadores profissionais por meio da "Operação Cardume", na qual 1728 supostos pescadores tiveram seus registros cassados por irregularidades. Este ano, surgiu a idéia de uma moratória que suspendesse a pesca profissional por quatro anos no Pantanal. Foi recebida com pouca simpatia, Afinal, somada à pesca esportiva, rende 200 milhões de reais ao ano para o Pantanal.

A Bacia do Alto Paraguai, que abrange também as nascentes dos rios pantaneiros, já tem 34 RPPNs, 16 delas no Pantanal. Grande parte foi criada ou implantada no ano passado, graças a um edital da Conservação Internacional que distribuiu 380 mil reais entre 19 propostas. O projeto já está na segunda edição. O objetivo final é juntar várias áreas de preservação para criar quatro corredores de biodiversidade na região.

Em 1999, a CI comprou a Fazenda Rio Negro para implantar o seu próprio modelo de RPPN aliada ao turismo e à pesquisa. E cometeu uma ousadia: tirou quase todo o gado e deixou o mato crescer, o que inflamou a ira dos vizinhos. "Se você não queima o pasto naturalmente, a natureza se incumbe de provocar um desastre", alerta Beatriz Rondon. Guilherme acrescenta: "O poder de combustão hoje é muito maior. Antes o fogo era produzido só por raio. Hoje tem rede elétrica, motor de carro". Sandro Menezes, da CI, não teme os incêndios e sobe o tom de voz para se defender: "Não vamos mudar de posição por causa das críticas. Há meios de controlar e prevenir o fogo. Nós queremos mostrar como melhorar o manejo de incêndios no Pantanal".

Antes caçadores convictos, os pantaneiros se tornaram amigos da onça e brigam pela sua preservação

Ambientalistas e fazendeiros, no entanto, concordam que o velho modelo de preservação não se aplica ao Pantanal. Tirar o homem daqui não vai ajudar. E, até agora, a melhor maneira de fixá-lo tem sido o turismo. Dezenas de pecuaristas já transformaram a sede de suas fazendas em pousadas para aumentar a rentabilidade de suas terras. Beatriz hoje tem 40% de sua renda anual proveniente de turistas, a maioria estrangeiros. Dos mais de 100 mil que visitam o Pantanal todo ano, estima-se que 70% cheguem gastando em dólar. Boa parte disso é alavancado pela prática da pesca esportiva.

É consenso, porém, que só o turismo não sustenta o Pantanal. Primeiro porque o calor, as chuvas e os mosquitos tornam inviável a visita nos meses de cheia. Segundo porque só há duas estradas que levam à região, e o acesso é muito caro. "Para ir de Campo Grande à Barra Mansa e voltar, os turistas pagam 2800 reais por um avião de três lugares. É o preço de uma passagem para a Europa", diz Guilherme Rondon. O Pantanal é para poucos, e os locais querem que continue assim. "Minha briga é para não ter estrada, mesmo que eu perca turista", completa Guilherme.

BIODIVERSIDADE PANTANEIRA

No Pantanal habitam mais de mil espécies de animais vertebrados, que correspondem a um quinto do total da fauna brasileira. Aqui, a grande maioria vive longe do risco de extinção.

OS BICHOS
A convivência relativamente pacífica do povo pantaneiro com a natureza permitiu que
o Pantanal se transformasse num santuário de vida selvagem. Aqui, a fauna que vive ameaçada de extinção no resto do Brasil e no exterior pode ser encontrada em abundância - ao menos enquanto o Pantanal existir.

O CERVO-DO-PANTANAL (Blastocerus dichotomus) é o maior cervídeo da América do Sul: pode chegar a quase 2 metros de comprimento e a 150 quilos. Gosta de viver em áreas alagadas, de vegetação baixa, daí a facilidade de ser avistado por aqui.

A JAGUATIRICA (Leopardus pardalis) já esteve seriamente em perigo. O Brasil chegou a exportar 80 mil peles deste felino por ano. Hoje ela é vítima do tráfico: um exemplar custa cerca de 10 mil dólares lá fora. Vive tranqüila no Pantanal, mas é raramente vista, já que só sai à noite.Mais tímida que a pintada, a ONÇA-PARDA (Puma concolor) costuma esconder-se perto das árvores. Sua maior ameaça é a perda de hábitat. No Pantanal, o avanço do desmatamento está levando a suçuarana a capturar bezerros nas fazendas.Oitenta por cento dos 6 500 exemplares de ARARA-AZUL (Anodorhynchus hyacinthinus) que há na natureza estão no Pantanal. Isso graças a um projeto criado em 1990 que fez dobrar a população desta ave. Pesa sobre ela, porém, a ameaça do desmatamento.

A presença da ARIRANHA (Pteronura brasiliensis) indica que o hábitat está em equilíbrio, já que ela se situa no topo da cadeia alimentar dos rios pantaneiros. Alimenta-se de peixes, mas também recorre a cobras e filhotes de jacaré.

O TAMANDUÁ-BANDEIRA (Myrmecophaga tridactyla) costuma ser visto pelos campos em busca de formigas e cupins. Chega a comer até 30 mil insetos por dia. As queimadas são suas grandes inimigas: seu pêlo pega fogo com facilidade.

Está cada vez mais fácil ver uma ONÇA-PINTADA (Panthera onca) no Pantanal. Ao mesmo tempo em que o desmatamento diminui seu território, o animal também está sendo menos caçado pelos fazendeiros, graças a um projeto que os reembolsa pelo gado que foi morto pelo felino. Em três anos, já foram pagos mais de 20 mil reais em indenizações. Estima-se, porém, que cerca de 60 onças ainda sejam mortas por ano no Pantanal.

 
SUPERPOPULAÇÃO

Segundo censo aéreo, chega a haver 150 jacarés por km² em algumas áreas.
 
A vez dos jacarés

Até a proibição da caça no Brasil, em 1967, o comércio de peles de jacaré-do-pantanal (Caiman crocodilus yacare) movimentava milhões de dólares por ano. Os mesmos animais, porém, continuaram rendendo outros milhões no comércio ilegal dos anos seguintes, até que a demanda internacional pelo jacaré brasileiro caísse no final dos anos 80. Foi o bastante para pôr o bicho na lista dos ameaçados de extinção. Hoje a Embrapa estima em 3,7 milhões o número deles no Pantanal. Feito em grande parte obtido quando o Ibama resolveu regulamentar a criação de jacarés em 1990. As normas, porém, são rígidas: ao produtor só é permitido recolher os ovos em um número limitado de ninhos, e os filhotes devem ser todos criados em cativeiro. Depois de muitos altos e baixos, o comércio de pele e carne de jacaré hoje está finalmente se tornando uma boa opção econômica para o pantaneiro, embora o investimento seja muito alto. Já há 53 criadouros de jacaré-do-pantanal regulamentados pelo Ibama, quase todos no Mato Grosso. Alguns chegam a ter 70 mil animais em cativeiro.
 
Para completar a renda com o turismo, os proprietários agora querem pôr em prática algumas experiências esboçadas pelo projeto do Parque do Pantanal. Elas incluem a invenção de um selo orgânico para a carne pantaneira (veja quadro) e a criação extensiva do porco-monteiro, o único animal que é permitido caçar no Pantanal. Há quem já esteja criando abelhas por aqui, aproveitando a raríssima oportunidade de produzir mel a partir de floradas silvestres. Outros já estão ganhando dinheiro criando jacarés para abate.

O povo pantaneiro é o maior interessado na preservação do lugar. Se o Pantanal morrer, eles morrem junto
 
UM SÓ LUGAR

Nas árvores que servem de dormitório, várias espécies compartilham a mesma copa. Um exemplo de tolerância que merece ser seguido, especialmente no Pantanal.
 
Se muitos pantaneiros como Beatriz ainda não entregaram os pontos é porque sabem que têm o próprio Pantanal a seu favor. Ou melhor, suas águas. "A natureza é maior que o homem", ela diz; "os empresários vão perceber que o Pantanal não vale o investimento." Já é folclore local o episódio da construtora Camargo Corrêa, que nos anos 70 resolveu construir 40 quilômetros de diques para segurar a cheia e acabou afogando tudo à sua volta.

André Thuronyi, carioca radicado há 30 anos no Pantanal, ressalta: "Sempre há os inteligentes que vêm querer implantar grandes idéias, acham que o povo daqui é burro. No Pantanal, a sorte é esta: a natureza se encarrega de expulsar". E nada mais emblemático do que a própria estrada que leva às portas de sua pousada: a Transpantaneira, hoje um pedaço inútil de rodovia vencido com fulgor pelas águas pantaneiras. Talvez venha dessas águas a heróica e felina resistência de Beatriz Rondon. Não foi o grande poeta Manoel de Barros que escreveu que "o homem deste lugar é a continuação das águas"? A isso Beatriz responde com a determinação que só os últimos de uma espécie exibem: "Eu vivi a era áurea do Pantanal, e amava aquilo tudo. O que eu tiver nas minhas mãos para manter, eu vou fazer".

Fábrica de cultura

Certos de que a salvação do Pantanal passa pela preservação de sua cultura, alguns fazendeiros pensaram em alternativas para fixar o homem na região. Uma delas é o das Escolas Pantaneiras, criadas em 2000 dentros das fazendas para evitar que as crianças troquem o campo pela cidade. Hoje há sete em funcionamento, e todas seguem o ritmo local das águas: o ano letivo vai de abril a novembro. Já o Projeto Sapicuá Pantaneiro viaja pelo Pantanal ensinando as famílias dos peões a manter viva a cultura regional. Além de doar os equipamentos, a iniciativa realiza oficinas que mostram como tranformas os materiais do campo - couro, lã e barro - em chinelos, colchas e peças de artesanato. Em quatro anos de existência, o Sapicuá Pantaneiro já chegou a cerca de 500 pessoas. Mas o orgulho maior da idealizadora, Cláudia Medeiros. é ter popularizado a confecção da faixa paraguaia, cinta usada pelos peões para sustentar a coluna na cavalgada: "Havia uma só pessoa no Pantanal que ainda sabia tecer a faixa. Hoje são dezenas."
 

UM LUGAR ÚNICO

Com 210 mil quilômetros quadrados de extensão, o Pantanal é a maior planície inundável do mundo. Cerca de 70% dela está no Brasil. A paisagem mistura elementos do cerrado, da Amazônia e da caatinga. O isolamento provocado pelas cheias anuais tem ajudado a mantê-la preservada nos últimos séculos, mas até quando?

Estranha geografia
Para explicar a região, os pantaneiros desenvolveram um vocabulário próprio, com termos que até desafiam o senso comum:

BAÍAS são lagoas que se formam durante a cheia nas partes mais baixas do relevo. Quando a planície seca, são dos poucos pontos que se mantêm com água.
SALINAS são baías de água salgada. Surgem quando a água da chuva mistura-se ao carbonato de cálcio depositado no solo pelos rios que descem da Serra da Bodoquena, rica em calcário.
VAZANTES são canais largos por onde a água das chuvas escoa em direção aos rios. Permanecem secas durante metade do ano.
CORIXOS são riachos permanentes que deságuam num rio maior. Durante a cheia, a vazão aumenta a tal ponto de confundir-se com um rio de verdade.
CORDILHEIRAS são elevações mínimas no terreno, quase imperceptíveis. Como a água
não chega até elas, estão sempre cobertas pela mata. Na época das cheias, são o refúgio dos bichos.

Quatro estações

Devido às mudanças no clima global, o ciclo anual das águas pantaneiras não apresenta a mesma regularidade de antes. Mas, numa situação habitual, a água das CHUVAS começa a preencher as partes baixas do relevo em novembro, quando também engrossa a cabeceira dos rios. Como há pouco declive, os rios transbordam e inundam os campos. Durante a CHEIA, o isolamento é total. Os rios podem atingir 5 metros acima de seu nível normal. Em maio, a água começa a evaporar e a descer rumo ao Rio Paraguai, único escoadouro da planície. É o início da VAZANTE, na qual a água resta em pontos isolados que aprisionam os peixes e atraem os animais. Em agosto, quando o ipê-roxo floresce, é a SECA que chegou. Nos campos, sobraram os nutrientes que alimentarão a fauna e a flora pelo resto do ano - até que as chuvas venham repor toda a água que se foi.

Comido pelas bordas

Segundo estudo da Conservação Internacional, 45% das matas que cobriam a Bacia do Alto Paraguai (mapa à esq.) já foram postas abaixo (nas áreas em branco). O desmatamento que avança sobre o Pantanal já tirou 17% da vegetação original.

1 A Rodovia Transpantaneira foi idealizada na década de 70 para ligar Poconé a Corumbá
e atravessar o Pantanal por meio de um aterro. Com a divisão do Mato Grosso em dois estados em 1977, só o trecho que a liga a Cuiabá foi concluído. Hoje seus 147 quilômetros e suas 126 pontes de madeira vão só até Porto Jofre, à beira do Rio Cuiabá, divisa dos dois estados. Sem a menor utilidade econômica, foi transformada há dez anos numa estrada-parque que facilita o acesso ao Pantanal Norte.

2 O Rio Paraguai nasce na Chapada dos Parecis (MT) e percorre 2600 quilômetros até desembocar no Rio Paraná. Até a década de 50, era o único meio de sair do Pantanal. Hoje continua sendo o único canal por onde escoa toda a água que inunda a planície. Seu declive é de apenas 200 metros; as águas correm tão lentas que uma canoa sem remador levaria seis meses entre Cáceres e o Atlântico. Desde os anos 60 se discute o alargamento do leito do rio para a criação de uma hidrovia internacional.

3 O Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense é o único da região. Situado perto da Serra do Amolar, fronteira com a Bolívia, foi criado em 1981 e permanece até hoje fechado ao público. Em 1995, a Fundação Ecotrópica comprou três fazendas em torno do parque e as transformou em Reservas Particulares do Patrimônio Natural, ampliando, assim, a área de preservação.

4 Fundada em 1778 pelos portugueses, Corumbá é a maior cidade do Pantanal, com 100 mil habitantes. Já foi o terceiro maior porto da América Latina. Hoje tem importância apenas regional e uma economia baseada na pesca e no turismo. Como há muito minério de ferro no município, o governo quer montar aqui um pólo siderúrgico.

5 O Pantanal está dividido em 11 sub-regiões, cada uma influenciada por rios diferentes e com distintas características geográficas. O Pantanal da Nhecolândia, por exemplo,
é rico em baías. Já o de Nabileque é onde as cheias costumam ser mais intensas.

GUIA DA TERRA

como chegar
De Cuiabá, chega-se às pousadas pela precária Transpantaneira. De Campo Grande, a BR-262 leva apenas às fazendas limítrofes. Para chegar às regiões mais isoladas, é preciso alugar um avião. Por uma hora de vôo num monomotor, um piloto cobra R$ 900 pelos três lugares. Num bimotor, o valor sobe para R$ 1 200 por cinco lugares.

quando ir
Na época das cheias o acesso é mais difícil e as chances de avistar animais são menores. Sem contar o calor e os mosquitos. Na seca, os bichos se aglomeram em torno das baías e é mais fácil vê-los. Durante a vazante, quando ainda ha água, é quando o Pantanal fica mais bonito.

onde ficar
Fazenda Santa Sophia, (67) 3034-2122,
www.fazendasantasophia.com.br
Recanto Barra Mansa, (67) 325-6807, www.hotelbarramansa.com.br
Fazenda Rio Negro, (67) 3326-0002, www.fazendarionegro.com.br
Refúgio Ecológico Caiman, (11) 3706-1800, www.caiman.com.br
Fazenda Baía das Pedras, (67) 356-1500, www.baiadaspedras.com.br
Araras Eco Lodge, (65) 3682-2800, www.araraslodge.com.br

quem leva
Ambiental Expedições, (11) 3818-4600,
www.ambiental.tur.br

dica do autor
"Não deixe de conversar com o povo pantaneiro, fazendeiros e peões. Eles têm muita história para contar sobre o Pantanal."

Xavier Bartaburu

 

 

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